Entretempo (2025)
Exposição Individual
Aurea Museum | Lisboa, Portugal
Regresso à superfície
Nuno Sousa Vieira
Em dezembro de 1998, no Abrigo do Lagar Velho, localizado na região de Leiria, foi feito um achado arqueológico de extrema relevância: o esqueleto de uma criança com cerca de quatro anos de idade. Esta descoberta, datada de aproximadamente 30 mil anos, veio, não só confirmar a existência de cruzamentos genéticos entre Neandertais e Homo Sapiens, como também revelou práticas culturais surpreendentes para a época. Os adornos e objetos encontrados junto ao esqueleto sugerem a realização de cerimónias de enterramento, o que atesta a existência de uma complexidade simbólica e emocional nos nossos antepassados muito anteriores ao que, até então, se supunha.
Do ponto de vista processual, é possível estabelecer um paralelo entre a investigação arqueológica e o trabalho artístico de Giulia Paz. Em ambos os casos, a escavação e o aprofundamento — o ato de remover, camada após camada — permitem um regresso a um período histórico que não nos pertence temporalmente, mas que lhes pertence genealogicamente. No entanto, é precisamente esse distanciamento temporal que, paradoxalmente, nos ajuda a compreender melhor o presente, a revelar conexões ocultas ou, até a harmonizar a nossa perceção do mundo com as camadas de significado que o precederam.
Giulia Paz, no seu processo criativo, parte de um plano ou superfície pictórica que escava e desconstrói, retirando-lhe matéria de forma deliberada e reflexiva. Este gesto, aparentemente destrutivo é, na verdade, uma busca: a artista procura atingir o cerne do seu trabalho, o núcleo essencial que justifica e dá sentido à sua expressão. Tal como o arqueólogo, que para interpretar os vestígios precisa de os exumar e analisar, também Paz necessita de regressar à superfície, à luz do presente, para tomar consciência plena das suas descobertas. Só então, após esse movimento de ida e volta entre o oculto e o visível, é que se torna possível compreender a verdadeira dimensão do seu trabalho.
Nesse regresso à superfície, Giulia Paz desenvolve um conjunto de obras que funcionam como confidências visuais: palavras, percursos e emoções são documentados e transformados em obra. Mas não são apenas estas as obras finais, que contam a história deste processo, também as feridas deixadas na superfície escavada, as marcas, os vazios e as cicatrizes, se tornam parte integrante desta narrativa. Estes indícios, provas tangíveis de uma viagem a um tempo que não o seu, são fundamentais no seu processo criativo, considerando que lhe permitem estabelecer arcos temporais entre o que foi, o que é e o que poderá vir a ser.
Setembro 2025