No Impulso de um Sopro (2026)
Exposição de André Rodrigues, Capi e Giulia Paz
Espaço Cultural Mercês | Lisboa, Portugal
Fotos: Miriam Pedrozo
O sussurro da visão
Carlos Vidal
Não foi certamente mais uma boutade, e muito menos uma graça inútil - muito pelo contrário, é uma ideia extremamente útil, sobretudo para entender o essencial desta exposição (não apenas, naturalmente) – o que Salvador Dalí respondeu quando lhe perguntaram o que salvaria do Museu do Prado na iminência de um derradeiro cataclismo: ele salvava o ar da sala de Las Meninas, a obra de interpretação infinita (diria Jonathan Brown, diremos nós também com conhecimento de causa) de Velázquez.
Vejamos, Dalí não salvaria o quadro (de facto, não há por lá nenhum quadro, qual quadro? O que Velázquez pinta no quadro dentro do quadro? Ou o Las Meninas que contemplamos na sala do museu? Ou um e outro são o mesmo quadro?), Dalí salvava o ar da sala de Las Meninas, o que significa que um pintor, neste caso Velázquez, pintou o ar de um espaço, nada pintou no ar (de uma sala vazia), mas antes o próprio ar, matéria pictórica que se adiciona à pintura sem que o percepcionemos, não a leveza da linguagem (tema central desta exposição, que necessita de objectos apesar de aspirar desobjectualizar- se, fazendo isso através dos objectos), mas a própria leveza, o átomo, logo uma coisa sem nome.
Seguindo Italo Calvino, um autor de referência para este colectivo que aqui se reúne pela segunda vez em exposição (já antes se mostraram em Maio, de 2025), nas Six Memos for the Next Millenium, admiramos a leveza dos átomos porque conhecemos o peso das coisas e dos objectos (afirma-se: a leveza conduz ao peso), espaço impossível e contraditório onde se movem as obras de Inês Gomes da Silva (Capi), Giulia Paz e André Rodrigues, actores que tentam mostrar a realidade sem gravitas dos objectos de arte, embora, como disse, o façam nos objectos: que pretendem metamorfosear-se, por isso as esferas de Capi são mais reflexos (uma da outra em dois pisos diferentes) que esculturas (ou pinturas), os tecidos de Giulia Paz são sobretudo linhas que se movem, porque existe o ar que se move connosco (e existe para ser representado) no movimento não da autora mas do espectador (involuntário coautor), e o chão de André Rodrigues é uma obra de cerâmica (com peso, portanto) que serve para ser contemplado, sem peso e sem matéria, ou com peso e matéria, mas que na sua realidade de duplicação do existente (chão que pisamos), perde o sentido fazendo o próprio real perder o seu sentido de sempre.
Na leveza tudo tende para a abstracção (é uma regra), porque tudo passa por ser outra coisa: as esferas são reflexos, os tecidos são linhas (não-tácteis pois estão em estado de imaterialidade, ou seja, uma linha não existe a não ser quando se move – um paradoxo absoluto), o chão é sujeito de contemplação e não de uso. Mas a contemplação torna-se acção, pois eu passo junto dos tecidos de Giulia Paz e as linhas desfiadas (por um laborioso processo artesanal são levíssimas) movem-se: sublinhe-se, eu não sou actor desse movimento, o movimento dá-se no seio do meu desprendimento e despossessão, eu movo-me sem consciência do que posso activar; nada pretendo e as linhas movem-se comigo no meu desapego, que é sinónimo de leveza e desprendimento; tal como é por total desprendimento (coisa imotivada) que não piso o chão do André e não reconheço, de entre as esferas de Capi, qual é a original e qual é a reflexa.
Chego a uma das referências do André: o Tao. Leio em Lao Tse: “O Tao a que é posto um nome não é o Tao eterno. O seu verdadeiro nome é o não- nome. É no inominável que está a origem do céu e da terra”. As esferas são reflexos, os tecidos são linhas no espaço (dependentes da minha não-vontade) e o chão é um objecto de contemplação; além disso as escadas que ligam o piso térreo ao primeiro piso estão forradas degrau a degrau e libertam-nos do nosso peso.
Seguimos contemplando, mas o sentido do que fazemos, seja o que for, só existe se nos libertarmos da posse do sentido. É uma mensagem que define a obra de arte, o acto criativo e a sua relação com o espectador. Lao Tse, de novo: “Esvaziamo-nos do desejo, e vemos o mistério”. Mas a verdade do “mistério” só é perceptível na noite profunda (aqui Lao Tse encontra-se com a “noche oscura” de S. João da Cruz), qualquer coisa só é perceptível e só tem sentido no seu adensamento e peso (desconhecido), ou seja, no seu peso máximo. A densidade pesa, a noite obscura pesa, o desconhecido pesa. Por isso é que nesta exposição a leveza é o peso de tudo o que a constitui.
O chão tem o peso de não ser utilizado, as esferas têm o peso de não serem reflexos (são duas esferas ligadas para todos os efeitos), as linhas de Giulia Paz são tecidos, de novo, no adensar-se da realidade tudo volta a uma espécie de origem.
E o mistério permanece (ou melhor, desvanece-se) quando tudo volta ao “normal”: esferas, chão e tecidos suspensos. Nestes termos, chegamos à serenidade (Gelassenheit, em Heidegger), depois da experiência da leveza, do desapego e do desprendimento do sentido (Abgeschiedenheit, para Mestre Eckhart, místico medieval que muito influenciou Heidegger): chegamos e sentimos passado determinado tempo, enfim, que estamos numa galeria com seus objectos de arte, respirando o ar de uma sala comum, no entanto o ar que activa sem querermos o que os objectos têm de inesperado (o seu detalhe estético). O sentido dos objectos paira sobre eles como um fantasma – o autor não activa o sentido, é o espectador que o faz sem saber (conhecido princípio duchampiano). E talvez seja este o significado da leveza: um corpo indiferenciado, ou indeterminado, torna-se algo sem que nada nem ninguém saiba como tal aconteceu. Inevitavelmente, ao longo do ar deslizante da sala.