Regressar à Pedra (2025)
Exposição de André Rodrigues, Capi e Giulia Paz
Galeria da AEFBAUL | Lisboa, Portugal
Fotos: Miriam Pedrozo
“Se existem búzios que nos invocam o som do mar, então as pedras serão aquelas que nos convidam a escutar o som da terra. É um símbolo da permanência, das raízes; é uma gravidade que nos deita a mão e puxa-nos a um retorno. Esta energia, à qual podemos atribuir um peso, é possível encará-la com olhos onde encontramos antes uma leveza – não porque estamos a tentar desmentir o seu peso, mas porque nos devolve ao que é mais essencial: devolve-nos ao corpo, ao tempo e à escuta.
Aquilo que Italo Calvino nos propôs ao escrever as Seis Propostas para o Próximo Milénio, no seu capítulo dedicado à leveza e descrevê-la enquanto algo a preservar, foi, acima de tudo, observar o que é denso com um olhar de suspensão, abertura e reencontro. Não fugir do mundo e do seu peso, mas sim reencontrá-lo sob outra opacidade, de modo a ganhar uma nova respiração e, por conseguinte, a desejada leveza.
Desta forma, uma pedra não é vista como um obstáculo – é nela onde se encontra o caminho. A sua quietude primitiva carrega uma presença, e na sua aparente dureza abre-se espaço para sentir. No meio deste seu silêncio, convida-nos a escutar um diálogo entre o ar e o ser, entre o que flutua e o que permanece. É intervalo, é um ponto de concordância entre o mundo visível e invisível, aquilo que nos é tangível e o que não é.
Regressamos à pedra para recordar que é no chão que voltamos a ser.
Regressamos à pedra para, dentro de nós, encontrarmos o nosso caminho.”
André Rodrigues, maio 2025